30 de dezembro de 2010

MILF - MANUAL DE INSTRUÇÕES



Outro dia um amigo disse que estava um pouco confuso, grilado.  Comentou que atual namorada tem o dobro da idade da anterior.


Mais ou menos uma semana depois um colega me contou que estava saindo, discretamente, com uma mulher que trabalhava conosco, ela também com alguns anos a mais que ele. Como sou casado com uma mulher assim, ele quis ouvir minha opinião.

O que eu podia dizer?

Bem, pra começo de conversa,  a beleza da juventude feminina é uma força poderosa e evidente demais pra ser ignorada. Não dá pra fingir o contrário. Desse modo, ter um relacionamento com uma mulher mais velha só vale a pena se a relação for realmente bacana em todo o resto.

Se não tiver certeza disso, é melhor nem começar. Mulheres em geral não gostam de homens indecisos. Quando mais velhas, passam a detestá-los.

Mas suponha que tudo dê certo. Ela te dá bola e vocês resolvem passar um tempo juntos. O convívio também é diferente.

Faço aqui uma analogia. Acho que todo homem entenderá o que estou dizendo.

Ser mais novo que a esposa/namorada é o mesmo que torcer pra time pequeno: A paixão que você sente é muito mais baseada nas pequenas realizações do dia-a-dia do que na explosão das grandes conquistas.

Não é melhor nem pior. Apenas não é pra todos.

10 de novembro de 2010

BUSÃO, 6:15



Ela entra dois pontos depois do meu. Eu sempre consigo lugar pra sentar e ela não.
Quando ela vem pelo corredor eu não tenho idéia do que fazer com meu rosto. Olho pra ela? Como eu olho pra ela? Dou um sorriso? Acho que não.
Queria tentar fazer uma cara séria. Mas não quero ficar com cara de bravo. O duro é conseguir ficar com uma cara boa a essa hora. Quando minha mãe me acorda eu vou pro banheiro mijar e me olho no espelho... Putz.
Mas não é pra tanto, né? Depois do copo de leite e do gel no cabelo eu devo ter melhorado a fachada. Certeza.
O foda é que ainda não sei que cara fazer. Cara de nada? Tipo aquela que saiu na foto da carteirinha esse ano? Também não dá.
Essas meninas gostam daquele olhar “tô nem aí”, tipo o que rola em filmes. O mano tá lá, na dele, e elas se derretem em cima do fulano. Acho que é esse o lance. Tô nem aí.
Mas, peraí. Se eu ficar na minha como vou fazer pra puxar papo com ela? A mina passa pelo corredor, vai lá pra perto da porta e nem olha pra minha cara. Vou ficar como? Fazendo cara de paisagem? Vou fingir que não me interessa?
Interessa, sim! Ficar com cara de metidão não ajuda.
Nossa, olha só pra ela. Bonita pra caralho. Um olhar...
Pô, é isso! É esse olhar que eu tô tentando descobrir.
Olha que coisa. Depois de semanas (meses, sei lá) olhando pra ela, me matando pra tentar descobrir como olhar pra ela sem parecer um idiota, ela aparece escutando música no fone de ouvido e fazendo justo aquela cara que eu tava procurando. É uma cara tipo "sou gata, e daí?". Só que  ao mesmo tempo ela fica parecendo que é simpática, que quer conversar, trocar ideia. De boa.
Tá, eu sei que a minha cara não é a mesma, mas dá pra fazer igual. Mais ou menos igual. Deve dar.
Ela curte música. Acho que eu consigo conversar com ela, então. De música eu gosto. Tem aquelas fitas lá do papai... Mas como que começa? O foda é isso, começar. Sempre é foda. Eu não sei o que dizer. Vou perguntar o que ela tá ouvindo? Puta coisa idiota. "Oi, que cê tá escutando? Parece da hora". Não dá.
Eita! O cara que tava sentado do meu lado tá levantando. O ônibus nem chegou no Centro ainda. Ué...
Ô louco... que é isso? Ela tá vindo sentar do meu lado? Nossa!
Ai, meu Deus. E agora? O que que eu faço? Já sei, fico olhando pra janela. Tipo, não sei de nada, nem vi que o cara saiu e ela sentou no lugar.
Velho! Que perfume é esse? Minha nossa senhora.
E se eu der uma espiadinha pra ela? Acho que não vou parecer bobo. Só tô sacando o movimento, tá ligado?
Tá, vamos lá.
Corredor, cobrador duas fileiras na frente, janelas, uma sacola de supermercado, ela tá de brinco de argola e tem franja meio ruiva. Uma espinha... Caralho! O celular dela tá tocando.
Logo agora? Como será a voz dela? Não fala nada...
Acho que é só mensagem. Quem será que escreveu pra  ela? Será que consigo ler um pedaço?
Caramba, ela levantou a cabeça bem na hora que eu tava me virando. Quase que me pega.
Será que me viu? Capaz de ter visto. Merda.
E agora? Vou ter que ficar olhando pra janela no mínimo até chegar no ponto.
Nossa, o braço dela encostou em mim. Acho que é só o cotovelo. É o cotovelo mais macio que eu já senti na minha vida. Tô de pinto duro. Aquele cotovelo é demais. Meu, como deve ser bom poder pegar sempre nele. Será que ela deixa? Lógico que deixa. Se eu namorasse essa mina eu ia poder pegar no cotovelo dela toda hora. Ou então eu podia pegar no resto do braço. Deve ser tão bom. Caramba, eu ia poder pegar nela inteira! Já pensou? Como será que ela é pelada? Nossa, imagina transar com ela. Por quanto tempo será que meu pinto fica duro? Meu, certeza que eu ia pegar nela o dia inteiro e ia ficar de pinto duro o tempo todo. Que da hora!
Mas acho que ela nem deve ter namorado. Imagina. Quem tem bala pra bancar aquilo ali? O cara tinha que ser rico. O cara tinha que ser dono da cidade inteira, isso sim. E tinha que ter uma pica de um quilômetro. Duvido, ninguém come ela.
Ah, mas como assim? Uma mina gata dessa sem ninguém? Não pode. Não é possível. Deve ter um doido que cata ela, sim. Aposto que o filho da puta tem carro. E um Nike Shox.
Desgraçado. Tem uma sorte. Como o cara consegue meter nela? Será que ele manda ela ficar pelada? Ou ele fica pelado primeiro? Nossa, o cara é foda mesmo. Será que vai casar com ela? Acho que sim. Ela vai continuar gostosa pra sempre. E a filha dela? Acho que vai ser gata também. Se a filha dela for bonita, eu chego junto. Quantos anos eu vou ter? Uns trinta eu acho.
É, não dá. Eu já vô tá velho. O namorado dela também vai ficar velho, mas ainda vai tá comendo ela. Filho da puta.
Como será que eu vô ficar? Será que fico careca? Acho que já vô tá casado. Dane-se se tiver careca. Se minha mulher for bonita, não dá nada. Vou comer ela todo dia.
Mas e se ela não for bonita? Tá louco, meu? Se não for gata, eu não caso com ela, ué.
Mas e se eu não conseguir?
Putz, deve ser chato, hein? Já pensou, o cabra com trinta anos e sem ter pego uma mina bonita? Mó frustrado, o coitado. Hahaha.
Mas, afinal de contas, quem que pega uma menina assim? A mina é mó cavala, já deve ter quinze ou dezesseis anos. Tem uns peitão. Ninguém consegue, não. Não dá.
Se desse, ela não tava andando de ônibus. Ela não ia precisar nem estudar. Só ia ficar em casa de boa, sem ter que ir pra escola nem andar de busão. Só ia andar de carro pra cima e pra baixo. Ela e o ricão do namorado dela.
Bem feito que ela só anda de ônibus. Olha só pra ela. Tá com uma cara de comeu-e-não-gostou. Fresca. Deve ser chata. Deve ser metida pra caralho. “Ai, não gosto”. Não gosta de nada. Só deve tá ouvindo porcaria nesse rádio, aposto.
Ué? Porque ela tá pegando o celular? Não escutei barulho nenhum. Vou disfarçar. Dessa vez eu consigo ler. O que será que mandaram pra ela? Peraí. Acho que ela só tá escrevendo.
Nossa, que da hora. Pra quem será que ela tá mandando mensagem? Meu ponto é o próximo, que merda. Será que dá tempo? O farol tá fechado, beleza. Vai, minha filha, escreve logo nessa bagaça. Mas como que eu vou virar a cabeça pra conseguir ver a tela? Já sei! Vou pegar meu celular e fingir que também tô usando. Deixa eu ver: cobrinha, paciência... Uau, ela tá de saia hoje. Que que é aquilo escrito?
“Voltei a sentir aquela dorzinha chata na periquitinha. Culpa do seu ‘amigo’. Seu safadinho!”
Que amigo?

10 de julho de 2010

CRIME E CASTIGO – FIÓDOR DOSTOIÉVSKI


Li Crime e Castigo numa versão dividida em dois volumes. É justo que se faça duas resenhas.


Resenha 1
O óbvio: Ninguém soube descrever melhor as agruras de um jovem ex-estudante desempregado.

O não tão óbvio: É possível escrever de forma bem humorada sobre um romance trágico entre um assassino e uma prostituta.

O nada óbvio: Só mesmo na Rússia poderia surgir o chamado "socialismo real" e todas as suas implicações.

Resenha 2
Romance policial? Drama existencial? Literatura marginal? Tudo isso e mais alguma coisa terminada em “al”. O tamanhão do livro (quase mil páginas) assusta os mais impressionáveis. Mas a história de um assassino que se envolve com uma prostituta flui num ritmo surpreendentemente ágil, com porções bem dosadas de suspense, dilemas humanos e humor ácido. Simplesmente magistral.


27 de maio de 2010

TV, ESPORTE E VOCÊ – TUDO A VER



O canal de esportes é o melhor companheiro do homem. Pode ser qualquer um desses qualquer-coisa-sports-network-channel, todos têm o seu valor.

É uma distração perfeita, sem contra-indicações. E pode lhe livrar de algumas enrascadas, como a que eu vivi outro dia.

Recentemente, eu e minha esposa recebemos um casal em nosso apartamento. Minha esposa conhecia a mulher de longa data, mas só tínhamos sido apresentados pro cara há pouco tempo. Sobrou pra mim, claro, fazer sala ao sujeito. E daí que fiquei frente-a-frente no sofá com um quase desconhecido

A conversa não engrenou. Ele tava dirigindo, não podia beber e também não fumava. Havia pouco a se fazer pra quebrar o gelo.

A TV tava ligada em um programa aleatório, desses de auditório, sem nada interessante. Resolvi colocar no canal esportivo. Estavam transmitindo um campeonato internacional de dança de salão.

Não é o esporte mais viril do mundo, reconheço.

Só que, independente do tipo de disputa em jogo, ao bater o olho na tela você reconhece um esportista de alto rendimento. Sabe que aqueles movimentos só podem ser executados por um atleta de ponta. E, no fim das contas, como era uma dança de casais, restava sempre a distração proporcionada pelas pernas das dançarinas.

Mas deixemos os detalhes de lado.

Ao assistir aquele pessoal saltando, dando piruetas e subindo uns nos outros pela TV, eu e o rapaz começamos a nos descontrair. Graças ao canal esportivo, compartilhamos aquela sensação prazerosa que temos ao assistir uma competição qualquer.

Afinal, mesmo que jamais tenha visto ou ouvido falar naquele esporte, 15 minutos depois você já está debatendo calorosamente sobre as técnicas como se estivesse tão habituado àquilo desde que nasceu. As regras são discutidas com a desenvoltura de um comentarista profissional. E, claro, é questão de tempo até você começar a fazer uma análise geopolítica a partir das disputas.


Se liga, aí vem a Rússia. O cara é frio demais. Não erra nada. Nunca vi isso.


Ô loco! Como esse cubano conseguiu fazer esse troço? Caralho!



Ah, não! Que juiz lazarento. Tá roubando na cara dura. Como assim?


Tadjiquistão? Onde fica isso?


Hummmm! Essa doeu.


Olha lá! Tá vendo? Eu sempre digo: por isso que os Estados Unidos ganham tudo.


Hahahaha! O argentino se fudeu bonito. Chupa!


Paisinho nada a ver que é a Nova Zelândia, né? Não cheira nem fede.


É, tá bom, vai... Eu só achei que o Japão foi melhor que os caras da Turquia, mas...


Putz, até a Costa Rica ficou na frente do Brasil. Que beleza!



E por aí vai. Nunca falha.


5 de março de 2010

GORDOS POBRES E MAGROS RICOS: UMA TEORIA




Não sou biólogo. Só metido a esperto. Por isso, formulei uma explicação para algo que me intriga há tempos: Por que de uns tempos pra cá os gordos são pobres em sua maioria?

Minha família possui um recorte social interessante. No lado de minha mãe, quase todos são longelíneos e de classe média.

No lado paterno é o inverso. Financeiramente, prosperaram pouco. E quase todos têm tendência a engordar.

Mas é fácil observar que isso não acontece só na minha família. Basta andar pela cidade.

Uso São Paulo como exemplo, pois é onde vivo atualmente. Mas acontece a mesma coisa nas demais cidades em que morei.

Vamos lá.

Dê uma espiada nas ruas de comércio popular da Penha ou da Rua 25 de Março. Há uma quantidade razoável de pessoas acima do peso andando pelas ruas. Homens, mulheres, crianças, todos andando de lá pra cá, disputando espaço nas conduções lotadas e nas calçadas apertadas, com suas roupas baratas e folgadas, cabelos desgrenhados e dobrinhas em torno da cintura de muitos.

Agora vamos partir em direção à Avenida Paulista. A rua é tomada por carros reluzentes deslizando de lá pra cá, à frente de edifícios envidraçados. Nas calçadas largas, homens esguios, com calças e camisas de corte reto, estreito. As moças são esbeltas, de cintura fina, com a silhueta alongada pelas roupas justas ao corpo.

À primeira vista, não faz sentido. Eu sei. Mas existem algumas teorias sobre isso.

A maioria dessas teorias analisa as diferenças educacionais e culturais entre pobres e ricos. Todas elas podem ser resumidas da seguinte maneira: os pobres, por serem pouco instruídos, comem alimentos excessivamente calóricos e não se dão conta de que isso os faz engordar, enquanto os ricos fazem uma dieta balanceada, formada por nutrientes com baixo teor de gordura.

Só que essa explicação não me convence. Por dois motivos. Em primeiro lugar, pobres e ricos, em seu dia-a-dia, fazem refeições semelhantes. Arroz com feijão (ou alguma massa), salada e um tipo de carne. Não foge muito disso, seja num bistrô sofisticado, seja num PF do boteco da esquina.

Em segundo lugar, mesmo que os pobres fizessem refeições mais gordurosas isso não bastaria para fazê-los ganhar peso. Salários baixos, em geral, são pagos a profissões mais desgastantes, que envolvem esforço físico intenso. O gasto calórico é alto.

Isso sem contar que para chegar ao local de trabalho os pobres percorrem grandes distâncias a pé ou em pé. Só no caminho entre casa e emprego o sujeito já gastou muitas calorias.

Daí você me pergunta: “Tá bom, ô espertão, então o que explica os rechonchudos da Vila Nhocuné e as magrelinhas do Itaim Bibi?”.

Vejamos.

Pobres descendem de famílias pobres. Ricos descendem de ricos – ou de pobres que subiram na vida e se casaram com ricos.

Se puxarmos pela árvore genealógica de um pobre, haverá diversos antepassados escravos, servos, lacaios e toda a sorte de trabalhadores braçais. Todos precisavam enfrentar serviços pesados, que, por serem menos nobres, remuneravam pouco ou quase nada. Garantiam, no máximo, a subsistência da mão-de-obra.

Essas pessoas, portanto, precisavam contar com um tipo físico que melhor se adequasse às suas rotinas. Isso acabou forçando uma “seleção natural” entre as classes baixas, já que só sobreviviam pessoas com genes adaptáveis a essas situações. Resistiam apenas aqueles que suportavam horas e horas de trabalho pesado, mesmo comendo pouco.

Já nas famílias ricas essa seleção não houve. Seus membros tinham profissões menos desgastantes, além de poder se alimentar mais vezes.

Daí veio o século XX, trazendo com ele os direitos humanos, a revolução do agribusiness com suas supersafras de alimentos e as transformações industriais proporcionadas pela mecanização.

Consequências: Todos se conscientizaram quanto à necessidade de remunerar os funcionários de maneira minimamente digna, além da mera subsistência, mesmo aqueles dos escalões inferiores. Além disso, os serviços braçais passaram a ser mais mecanizados e menos desgastantes. De forma paralela, os alimentos se tornaram mais baratos e acessíveis.

E o que aconteceu com aquelas pessoas cujos genes, durante séculos, foram selecionados para fazer o melhor uso possível das calorias ingeridas? Agora que os serviços, embora ainda duros, já não demandam tanto gasto energético quanto antes e a oferta de comida é muito maior, como o corpo delas reage?

Elementar, meu caro Watson.

16 de fevereiro de 2010

SÁBADO, 3 DA MANHÃ


 
¾                Chega, vamo embora.



Minutos depois, no carro, ela pergunta:



¾                Por que você quis sair daquele jeito? Eu nunca te vi assim.

¾                Porque eu tava de saco cheio, não aguentava mais!

¾                Não aguentava mais o quê? Do que você tá falando?

¾                Não aguentava mais aquela babaquice de dança, aquele monte de gente rodando, aquela música idiota.

¾                Como assim? Você adora dançar.

¾                Eu odeio dançar!

¾                Quê?

¾                Não gosto de dança, não gosto de forró, não gosto dessa merda.

¾                Mas você que escolheu vir nesse lugar.

¾           Escolhi porque eu sou um bosta. Escolhi porque sou um burro. Se eu fosse homem de verdade, tinha te levado pra uma balada que eu gosto. E pronto!

¾                Não tô te entendendo. Que negócio é esse de balada que você gosta?

¾               Te levei pro forró porque você gosta de dançar, porque queria te agradar.

¾        Ué, mas eu sempre pensei que você ia lá no forró porque gostava também. Eu até te conheci na lá quadra com o pessoal dançando.

¾         Mas eu não gosto. Não gosto de nada daquilo. Pra mim é uma merda. Ficar trinta horas ouvindo aquilo. Aquela bosta de música. Um monte de idiota sem assunto. Um se exibindo pro outro, todo mundo de passinho ensaiado.

¾           Só que você era um idiota desses até dez minutos atrás. E foi assim que você me conheceu, tá lembrado?

¾           Ah, tá OK. Que ótimo! Eu dei uma dançadinha ali, fiz o meu esquema e te conheci. Beleza! Fiz ali uma graça e te convenci a sair comigo. Olha só!

¾                E não tá bom?

¾                Não, não tá bom coisa nenhuma.

¾                E por que que não tá bom essa merda, então, caramba?

¾                Por que era hora de dar o próximo passo.

¾                Que passo? Do que cê tá falando, cara? Desembucha.

¾                Eu sou um pateta e continuo sem pensar em mim mesmo, só penso nos outros.

¾                Tá, desisto. Eu não fiz nada, tá legal? Eu não fiz nada.



Ele acusou o golpe. Percebeu que se fez de vítima, como um moleque.

Sabia que ela não havia feito nada demais. Ela só tava conversando com aquele cabeludo. Mais nada. Uma risada, uma cerveja. Só.


Ele percebeu o quanto foi fraco. O quanto pareceu fraco. Mas ele não sabia ser de outro jeito. Isso era um problema.

Era duro também sentir aquele perfume. O pescoço dela ainda estava quente, o cabelo suado na nuca. A calça começou a apertar. Fica chato tirar a mão do volante só pra ajeitar. Não tinha clima, ainda não se sentia confortável ao lado dela.

Ele abriu mais a janela do seu lado, respirou fundo. Conseguiu se acalmar.



¾                Tá bom, vou te explicar. Homem não gosta de dançar. É chato, não tem nada a ver. Tipo aquele Varanda’s, o que que é aquilo?

¾                Que, o Varanda’s? Ah, eu acho lá tão legal. Cheio de gente bonita.



Ela não podia ter dito isso. Gente bonita? Era difícil acreditar. Não combinava com aquele papo que tiveram na semana passada.



¾     O Varanda’s é legal pra você e praquele bando de bicha lá da sua faculdade. Aquele povo besta de arquitetura, tudo filhinho-de-papai.

¾                Do que que cê tá falando? Eu sou besta, agora, seu grosso?

¾                Não, não é besta. Mas tá aqui comigo.

¾                Devo ser besta mesmo, então.
 
¾                Eu não tô falando isso.

¾              Tá falando do que, então, cara? Que saco. Cê me fez perder a balada e agora fica aí de nhenhenhém?



A situação ficou fora de controle. Ele se apequenou, ela cresceu em cima dele.



¾              Não, porra. Eu só tô falando que no Varanda’s dá pra pegar mulher. Dá pra pegar, é mais fácil. É só saber se virar.

¾           Ah, tá. Agora o Varanda’s serve pra alguma coisa. Lá dá pra pegar mulher. E quem mais você pegou lá? Me fala!

¾          Não! Eu não peguei ninguém, cacete. Eu só disse que você tá aqui, comigo, porque eu me virei. Eu fui lá e te chamei pra dançar. Eu te tirei daquela rodinha e consegui conversar com você. Seu eu fosse só um tonto parado lá no meio cê nem tinha me dado bola. Dançar foi um mal necessário. É isso, um mal necessário. Dançar é um mal necessário.

¾                Opa! Temos uma confissão, senhores jurados. Tá querendo me dizer que se você não dançasse não pegava ninguém?



Ele quase atravessou o sinal vermelho. Não via a hora de chegar logo em casa e agora tinha que ficar parado no cruzamento. E o pior: ela venceu. Mandá-la descer do carro a essa altura seria apenas reconhecer isso.

Por sorte já estavam perto da casa dela.

Ele estacionou e forçou um bocejo, pra mostrar que estava cansado demais pra se despedir.

Ela ficou com pena dele, claro, mas não resistiu. Quis dar o tiro de misericórdia. Ela se virou pro lado, pra mostrar melhor o decote. Ao perceber que ele olhou para baixo em sua direção, ela deu um sorriso com o canto da boca e disparou.



¾                Você não precisava ter me tirado pra dançar. Eu te achei mais bonito que o Marquinho desde o começo.